CAPITULO I
“A MENINA E O RIO”
As águas do rio Moxotó pareciam estrelas brilhando num
espelho nessa tarde quente de abril. As chuvas tinham deixado a sua herança
anual através de toda a sua costa. Os sedimentos aluviais compostos de argila e
silte distribuíam-se por toda a ribeira do rio, até a parte das rochas calcares
que indicavam o começo de uma trilha – caminho que serpenteava- no meio da mata
do sertão e que conduzia até a propriedade rural do seu Rubião Rocha.
O silencio era eloquente, e só era quebrado pelos
passos de um par de pés pequeninos de uma menina de nove anos que parecia
desfrutar de essa inocente brincadeira. A menina estava toda encharcada e suja,
mas não só de água, como também de lama escura. Ela cumpria o ritual todos os
dias. Quando o seu pai e irmãos, após o almoço, voltavam ao trabalho nos
canaviais, ela ajudava a mãe com os afazeres da casa, lavava os pratos, limpava
a cozinha e, depois ia para o rio se lambuçar na lama.
Não adiantavam os protestos da mãe que via a filha
chegar toda suja. Ela, em silencio, lavava a roupa de pano amarela, toda
corroída e embolorada pela sujeira e, voltava a repetir a sua rotina, dia após
dia.
O universo dessa infantil figura centrava-se no rio,
na lama, nas rochas, em toda a natureza.
-Alma, é hora de voltar para casa – gritou dona Maria
das Dores do alto da rocha por onde começava a trilha que levava à
casa dos Rocha.
Alma virou a cabeça e acenou para a mãe. Entrou no rio
e mergulhou suavemente. Lavou o corpo todo e apressou-se a ir junto da mãe que
a olhava de forma intrigante.
Maria das Dores Malta, era uma mulher baixinha, de
olhos escuros, cabelos curtos começando a ficar grisalhos, e uma coragem de dar
inveja a qualquer mulher deste mundo.
Havia nascido no próprio Sertão de Moxotó quando Inajá
era conhecida pelo nome de Fazenda do Espírito Santo. Filha de Damião Malta e
de dona Rosa da Purificação, eram os primeiros habitantes da região. Inclusive
a primeira casa construída pertencia aos Malta.
Damião Malta chegou a ser um comerciante próspero. Na
sua venda, conhecida como Posto Malta, vendia-se de tudo: carne seca, azeite,
grãos, cachaça, queijo, cigarro e outros produtos que vinham de Recife.
Maria das Dores, conhecida como Dadá, era a única
filha mulher. Seu Damião e dona Rosa tinham mais dois filhos, todos mais novos
que Dadá.
De estatura baixa, profundos olhos escuros e
brilhantes, a moça passava por uma beleza exótica. De pele morena, chamava a
atenção pelo corpo escultural e pelo sorriso, muito raro, mas capaz de derreter
corações juvenis em toda a comarca.
Quando Dadá completou vinte anos, os pais pretenderam
arranjar um marido para ela. Dadá opôs-se terminantemente. Ela se casaria só
por amor e não aceitaria ninguém que não fosse do seu gosto.
Um dos candidatos apreciado pelos Malta era Damásio
Bezerra, o filho do coronel Bezerra, uma espécie de cacique da região. Era
proprietário da maior fazenda do Sertão de Moxotó e décadas atrás, eram
proprietários de escravos quando este sistema imperava no país.
Damásio estava apaixonado pela Dadá, mas ela não quis
saber
nada e o jovem, decepcionado, foi para Recife terminar
os estudos.
Foi então quando Dadá conheceu Rubião Rocha, de quem
ficou apaixonada.
O moço era originário de Arcoverde, uma cidade não tão
distante de Inajá. Filho único de um modesto fazendeiro que ganhava a vida com
o cultivo de cana de açúcar, Rubião Rocha ficou prendado pela Dadá assim que a
conheceu.
Alto e de cor bem branca. Tinha ascendência holandesa
e portuguesa. Rubião era um jovem forte, de olhos azuis, bem azuis e de pele
branca. Quando caminhava, parecia um oficial de exército a mando de suas
tropas. O avô materno era filho de um marinheiro holandês que desembarcou no
Brasil na época de Mauricio de Nassau e por parte de pai, era neto de um
comerciante português que, fugindo da cidade do Porto por dívidas, afincou-se
em Arcoverde e esqueceu o comercio, pois descobriu nas plantações de canaviais
um futuro promissor para sua família.
Por tanto, quando chegou a Inajá, o jovem Rubião tinha
conquistado o coração de Dadá, não só pelos belos olhos azuis, mas também
porque era um homem educado, coisa muita rara por essas bandas.
O pai acabara de falecer e Rubião comprou um terreno à
beira do rio Moxotó com o intuito de dedicar-se à plantação de tabaco e cana de
açúcar. Vendera a fazendinha de Arcoverde e mudara-se para Inajá.
Costumava comprar no Posto Malta todas as provisões
que necessitava e, numa dessas incursões, conheceu a filha do comerciante.
No começo a família Malta foi contra o namoro, mas a
moça foi firme e conseguiu convencer os preocupados pais de que Rubião era o
melhor homem para ela.
Um ano depois, em maio de 1922, casaram-se na Igreja
do Divino Espírito Santo, com a presença de todos os habitantes de Inajá. Na
festa, uma ausência: a família Bezerra. O casal teve três filhos: Damião,
nascido em abril de 1923; José Rubião,
nascido em setembro de 1925 e finalmente a caçula Alma
do Espirito Santo, nascida coincidentemente no domingo 8 de junho de 1930,
festividade de Pentecostes, o qual deu o nome à recém nascida.
*******


Nenhum comentário:
Postar um comentário